quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

REPRESENTAÇÕES E PRÁTICAS DAS MEDICINAS TRADICIONAIS

INTRODUÇÃO
Dominique Buchillet
In: MEDICINAS TRADICIONAIS E MEDICINA OCIDENTAL NA AMAZÔNIA (Contribuições científicas apresentadas no Encontro de Belém - 27/novembro a 01/dezembro de 1989).
Organizado por Dominiquc Buchillct. ·Belém, MPEG/ CNPq/SCT/PR/CEJUP/UEP, 1991.
Edições CEJUP Belém - Pará - Brasil 1991.
"As representações e práticas médicas tradicionais foram, durante muito tempo, consideradas como objetos exóticos, desprovidos de coerência e eficácia, característicos de sociedades e culturas subdesenvolvidas e destinados a desaparecer com a implementação e disseminação da medicina ocidental. O trabalho Medicine, Magic and Religion (London: Kegan Paul, 1924), de Rivers. foi o primeiro passo decisivo na direção de reabilitar as medicinas tradicionais. Nesse livro, ele articulou essas representações e práticas com outros aspectos da cultura e organização social e demonstrou sua lógica e coerência interna, isto é, que elas fazem sentido quando colocadas no contexto sócio-cultural onde ocorrem. Todavia, apesar do importante legado da obra de Rivers, essas representa- ções e práticas receberam uma atenção marginal por parte da antropologia, sendo, durante muitos anos, integradas a análises mais globais do pensamento tradicional, dos sistemas religiosos, mágicos ou rituais, ou seja, utilizadas como "variáveis dependentes" (Young, A. "Some implications of medical beliefs and practices for social anthropology", American Anthropologist 1976:78:5-24), possibilitando o entendimento destes sistemas culturais. Só recentemente é que elas se constituiram num objeto de estudo autônomo e foram abordadas de maneira sistemática. Existem hoje numerosos trabalhos de antropólogos que tratam das concepções tradicionais da saúde e da doença; representações do corpo e da pessoa; categorias etiológicas das doenças; técnicas de diagnóstico e de cura; estratégias terapêuticas; estrutura e papel social dos rituais terapêuticos; concepção da eficácia terapêutica; práticas profiláticas; categorias, for- 63 mação, status, função e atributos dos curadores tradicionais; relação terapeuta-paciente-comunidade no processo de cura; questão da articulação dos sistemas médicos; papel dos curadores tradicionais nos sistemas oficiais de saúde, etc. Todos estes trabalhos, além de esclarecer as concePÇões e práticas relativas à saúde e doença de uma sociedade particular, oferecem insights e aplicações possíveis para a própria prática clinica ocidental, particularmente no que se refere aos mecanismos da eficácia terapêutica, à rela- ção médico-paciente e à concepção multicausal da doença. "

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