quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Saber Mestiço de Michel Serres

Mestiçagem[editar | editar código-fonte]






By Wikipédia
Atravessando o rio, entregando-se todo nu à dependência da margem à sua frente, acaba de aprender uma terceira coisa. Do outro lado, decerto, existem novos hábitos e uma linguagem estranha (1997, 23).
Serres considera que o aprendizado, seja para o indivíduo, seja para as ciências se dá sempre no limiar, nessas interconexões entre o que já é conhecido e o que não é. O nome terceiro instruído, provém possivelmente de um trocadilho com a noção lógica de terceiro excluído. A lei do terceiro excluído , tertium non datur, enuncia que para qualquer frase F, ou F ou não-F são verdadeiras. A sua representação é feita da seguinte forma:
Ou seja, ou algo é, ou não é, sem uma terceira opção. Há apenas verdade ou falsidade, não há meio termo, o terceiro valor da expressão é excluído. Serres enuncia o terceiro instruído, aquele que não numa coisa ou noutra, que não está num lugar ou noutro, mas sempre num terceiro. A terceira possibilidade, um intermediário, um caminho, uma passagem, excluída da lei do terceiro excluído, é para Serres o ponto fundamental.
Eu o chamo de Terceiro Instruído (...) apaixonado por gestos diferentes e paisagens diversas, (...) arcaico e contemporâneo, tradicional e futurista, humanista e cientista, (...) monge e vagabundo, só e percorrendo as estradas, errante mas estável, enfim, sobretudo ardente de amor para com a Terra e a humanidade (1991,109-110).
Serres evoca a figura de Hermes, deus grego, considerado o mensageiro, intérprete da vontade dos deuses, deus dos viajantes. Dois aspectos de Hermes são essenciais na filosofia de Serres: a sua mobilidade em viajar pelos mais diversos lugares e o seu dom de invenção. Quanto ao primeiro aspecto Serres diz que Hermes “(...) passa por todo lugar, e visita os locais em seu detalhe específico e sua singularidade” (1999, 147). É essa facilidade em se deslocar, em passar pelos mais diversos ramos do conhecimento que Serres irá evocar simbolicamente. Pensando nos aspectos abordados até então fica claro por que esse deus é o escolhido para representar o modo como Serres entende as relações ou redes ou passagens que os diversos ramos do conhecimento, das ciências às artes, devem ter. O segundo aspecto da personalidade de Hermes que Serres irá aproveitar para falar do seu modo de entender a filosofia é a sua inventividade. “Ele inventa a lira de nove cordas (...) Isso é boa filosofia, que tem por fim, por excelência inventar o espaço transcendental (...) das possíveis invenções futuras” (1999, 154). Para Serres a boa filosofia não é a filosofia das interpretações e comentário e sim a filosofia da invenção. Ele dirá que apenas a invenção é séria. “De certo modo, não se deve permanecer na escola. Só a invenção é séria” (1999, 33). E esta se dá, não nas auto-estradas, nos caminhos conhecidos, mas sim, nas intersecções, nos caminhos terceiros, nos terceiros lugares, lugares de contato entre ciência e poesia, lugares mestiços. “O mundo está lateralizado por toda a parte e é assim que existe” (1997, 29). É contra esse mundo lateralizado, mundo que excluí os terceiros lugares, ou seja, os lugares mestiços, lugares de real inventividade, que Serres engaja sua filosofia.

Saber Mestiço

Madel Luz e o Desafio das Racionalidades Médicas e PIC na construção do SUS

'A universalidade dos novos tempos é diversa e mestiça" , diz pesquisadora que estará no Abrascão
Durante o 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, a professora Madel Luz vai proferir palestra com o tema ‘O Desafio das Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares na Construção de um SUS Universal’ e sobre este assunto, a professora conversou com a Comunicação da Abrasco para levantar a ponta do véu da palestra, compartilhando com os leitores qual a linha de pensamento que seguirá no próximo dia 29 de julho, às 14h00.
Madel pergunta logo “Por que desafio?” e responde sublinhando 3 pontos:
Explica que o sistema como um todo é hoje pensado na lógica da biomedicina, voltado para controle de doenças – “patologias, se achar mais elegante – na população que solicita mais os serviços. Ora, a lógica das racionalidades médicas complexas não biomédicas é centrada na vitalidade (ou perda dela) de pessoas doentes. O sujeito adoecido e sua recuperação é o centro de intervenção dessas medicinas e terapias, porisso mesmo denominadas vitalistas. Como conciliar lógicas tão divergentes? É um desafio. Desafio que tem sido enfrentado mais pelos profissionais que pelo sistema de saúde” resume Madel.
A professora reforça ainda que o sistema de saúde, como todos os subsistemas de funcionamento do sistema social globalizado, é atualmente produtivista, isto é, focado na “economia do tempo”: mais doentes atendidos em menos tempo é sinal de eficiência no atendimento e efetividade do serviço. “Ora, a maior parte das patologias e busca de atenção às mesmas, embora geralmente emergencial, é fruto de longa exposição a riscos de adoecer: os riscos produzidos pelo trabalho, seu ritmo e precariedade, e as relações predominantes no mesmo; os riscos que são fruto de estilos de vida pouco saudáveis, como a alimentação industrializada e a falta de exercícios, resultando em doenças crônicas; os riscos resultantes das próprias relações sociais atualmente vigentes: no par, na família, na coletividade, relações deterioradas, em grande parte devido ao medo e à insegurança sociais. A atenção à saúde torna-se, para o sistema, como um “recolher água do mar em balde”… nunca será resolutiva, por mais que se acelere o ritmo de atendimento, multipliquem-se as unidades, assim como as horas de trabalho dos profissionais. O que eles retiram do mar do adoecimento, o sistema repõe com as condições de vida. Começa então um segundo desafio: as Racionalidades Médicas e as Práticas Integrativas em Saúde não lidam com “causa de patologias” (ou seu estágio) e sua medicalização: lidam com a origem do adoecer dos sujeitos, e a reposição da saúde” adianta Madel.
Madel finaliza seu comentário com um 3º ponto – “A racionalidade biomédica tem seus pressupostos, bastante estreitos, aliás, e o que dela escapa é considerado não científico, não verdadeiro, portanto. Ora, as Racionalidades Médicas complexas, ocidentais ou orientais (Medicina homeopática, medicina antroposófica, medicina tradicional chinesa, medicina ayurvédica), assim como as Práticas integrativas que delas derivam (medicamentos homeopáticos, fitoterápicos, acupuntura, dietética, práticas corporais que trabalham a vitalidade, como o ki kung, a yoga, o tai chi chuan, etc), além das práticas corporais ocidentais, como as ginásticas, as danças, os esportes visam a restabelecer um equilíbrio permanente, embora instável, no viver dos pacientes, enquanto as intervenções biomédicas visam, geralmente centrados sobre medicação ou intervenções cirúrgicas, ao restabelecimento de parâmetros de normalidade, quantitativamente mensuráveis. Este é um grande desafio, se considerarmos apenas a relação de hegemonia paradigmática biomédica nos serviços. Mas isto leva mais a pessimismos e ratificação de não diálogos que o contrário, o desejado, isto é: otimismo em relação ao futuro e ao exercício contínuo do diálogo, e os frutos que certamente virão daí, tanto nos resultados, como na criação de novos paradigmas, frutos talvez, de uma mestiçagem teórica e prática já presente entre profissionais e pacientes. Este é talvez o desafio mais forte, mas também o que mais nos impulsiona a lutar pela permanência das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde na rede de atendimento do SUS, um sistema que aí sim, estará caminhando no sentido da universalidade. A universalidade dos novos tempos é diversa e mestiça. Apostemos nela!” convoca Madel.
Madel Therezinha Luz é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem mestrado em Sociologia – Universite Catholique de Louvain e doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.Foi professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e ainda na Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente é colaboradora da UFRGS e colaboradora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFF. É líder do Grupo CNPq Racionalidades em Saúde: Sistemas Médicos complexos e Práticas Complementares e integrativas, atualmente sediado no Instituto de Saúde da Comunidade, U.F.F.
Confira a participação de Madel Therezinha Luz na programação do congresso:
QUARTA-FEIRA 29 DE JULHO, de 14h00 às 16h00
Palestra O Desafio das Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares na Construção de um SUS Universal
Coordenador: Nelson Filice de Barros – UNICAMP (SP)
Palestrante: Madel Therezinha Luz – UFF e UFRGS (RJ)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Regulação cannabis no Uruguay

<iframe width="420" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/45iWeqqUbr0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe>